Participei recentemente de um seminário sobre Cidades Digitais, organizado pela Unesp de Araraquara e realizado no SESC daquela cidade. Foi uma boa oportunidade para aprofundar algumas reflexões que já andei esboçando nos últimos tempos. Minha apresentação transformou-se no texto abaixo. A primeira parte não tem muita novidade, mas pode ser interessante pra quem está conhecendo a MetaReciclagem agora. Os slides da apresentação estão disponíveis no scribd.

MetaReciclagem (de novo)

Nos próximos meses, a rede MetaReciclagem completa oito anos de um diálogo aberto e colaborativo sobre a apropriação de tecnologias. Insistimos em não aceitar as caixinhas temáticas em que muitas vezes tentam nos enquadrar - associando as práticas da rede ao mero reuso de computadores com a instalação de software livre e montagem de espaços de acesso livre à internet. Por certo que isso constitui uma das bases comuns da rede, que assumiu mesmo ao longo do tempo um caráter ritual, de replicação de metodologias que constroem identidade. Mas nossos horizontes são mais amplos, tratando a desconstrução de tecnologias como um universo abrangente - que inclui computadores e dispositivos enredados, mas também a construção de habitações, a culinária, a tecnologia aplicadas ao meio ambiente, assim como os meios de comunicação, as linguagens artísticas, as formas coletivas de organização e existência. Tratando como tecnologia qualquer ação ou objeto que embuta um propósito a partir de algum método.

O aspecto da desconstrução merece um pouco mais de atenção. O que importa aqui não é tanto seu aspecto objetivo, mas sim o processual - não o ponto a que a desconstrução leva, mas o caminho que percorre. É o proverbial "abrir a caixa preta", questionando cada faceta daquilo que nos é apresentado. A abertura supõe antes de mais nada uma sensibilidade do gesto de abrir, uma habilidade relacionada à percepção daquilo que pode ser aberto. Mesmo tratando-se de caixas pretas simbólicas, buscamos processos evolutivos - como o monolito de 2001 - cuja mera existência, em tese, teria provocado a curiosidade que nos diferenciou das bestas. É essa curiosidade, que traz o potencial criativo a cada momento, que emerge como traço comum a todos os bandos metarecicleiros. Uma criatividade não mais separada da experiência cotidiana, mas harmonizada com todos os aspectos da vida.

Complementar à gestualidade da abertura é a defesa da livre circulação de informação e conhecimento: as ações de MetaReciclagem usam software livre, buscam caminhos para o desenvolvimento de hardware aberto, promovem o espectro eletromagnético aberto, publicam conteúdo com licenças livres, e assim por diante. A rede em si funciona não somente como virtualização das relações, mas como espaço socialmente construído, que estende o potencial das ações locais - em escala proporcional à quantidade de informação que os atores locais publicam e à diversidade dos integrantes da própria rede.

Sempre esteve presente na MetaReciclagem a certeza de que é difícil estabelecer limites precisos entre o que é online e offline. Essa visão se reflete nas múltiplas identidades que ela assume - compreendendo simultaneamente o relacionamento com comunidades a partir de ações ultralocais e a mais profunda sensação de socialização remota. Isso possibilita um nível elevado de produção colaborativa e enredada: ideias e projetos desenvolvidos através da rede, que podem ser rapidamente replicados em qualquer lugar.

Cidades Digitais

De certa forma, articular a perspectiva da cidade traz para as redes um contraponto que pode ser muito produtivo. A cidade é a experiência imediata de estar em sociedade, uma experiência cuja iminente irrelevância os mais afoitos pregadores das redes digitais quiseram determinar. Segundo eles, a vida na cidade seria cada vez menos necessária, uma vez que não precisaríamos mais conviver com vizinhos desagradáveis. Felizmente, estavam equivocados em sua tentativa de elevar ao extremo o efeito da câmara de eco - em que as pessoas só ouvem opiniões parecidas com as suas.

Hoje a cidade volta ao foco não como oposto do digital, mas como um cenário que ele pode ampliar e multiplicar, e com isso ampliar-se e multiplicar-se a si mesmo. É uma relação claramente complementar. Nos últimos anos foram desenvolvidos milhares de sistemas, ferramentas e aplicativos, além de instalações artísticas, projetos educacionais e outros, que propõem o hibridismo entre as redes e o "mundo lá fora", que possibilita uma infinidade de interfaces em potencial. Em paralelo, veio também a disseminação do discurso das "cidades digitais". Mesmo que se tenha constituído como mais uma expressão da moda para os surfistas de hype, que adotam ideias que soam impactantes sem necessariamente pensar seriamente em suas consequências, é interessante pensar na expansão das possibilidades enredadas para as cidades.

É possível construir pontes entre as propostas da MetaReciclagem e a ideia de cidades digitais. Desconstruir os equívocos comumente associados às tecnologias digitais é relativamente trivial, coisa que já estamos fazendo há alguns anos. Por exemplo: apesar do suporte digital, grande parte dos usos das novas tecnologias são experiências analógicas - mover um mouse ou tocar na tela, ver uma imagem, escutar música. Chamá-las de digitais só faz deslocar o foco do que é realmente importante: as possibilidade de desintermediação, colaboração e auto-gestão. Outro aspecto que deve ser considerado em relação a essas tecnologias: acesso não é tudo. Para falar a verdade, acesso não é quase nada. Existem tantas camadas que se sobrepõem ao mero acesso que toda a retórica da inclusão precisa ser repensada, ainda mais se colocada em perspectiva. Em levando-se a sério, qualquer iniciativa de inclusão propriamente dita deveria ansiar pela própria irrelevância em alguns anos. Deveria considerar que sua missão terá sido cumprida quando não for mais necessária. Assim, aquelas experiências de cidades digitais que tratam apenas de oferecer acesso à internet, mesmo sem fio, deixam de lado um potencial tremendo. Precisam, antes de mais nada, incorporar a convicção de que as tecnologias são políticas, que constroem e transformam imaginários. Não são meros instrumentos cujos usos estão encerrados em maneiras pré-definidas de uso. Por isso, tais projetos não podem submeter-se à lógica do mercado, que trata as tecnologias somente como oportunidades de expandir e aumentar os lucros dos mercados de "produção cultural". É fundamental que se estimulem a experimentação, a reinvenção e a liberdade de usos.

Mas todos esses argumentos (hoje em dia) são quase óbvios. Eu gostaria de ir um pouco além. Me interessa pensar sobre a própria ideia de cidade. A gente muitas vezes esquece que a ideia contemporânea de cidade não é um absoluto, mas um episódio a mais de um longo processo histórico. Desde os primeiros assentamentos e tribos, passando por aldeias, pela polis grega e cidades-estado, os diferentes impérios do ocidente e oriente, o limite entre caos e civilização do mundo romano e sua decadência, os castelos medievais, os burgos, até a aglomeração que se viu a partir da revolução industrial. Uma transição que fez com que a vida em sociedade perdesse a sensação de familiaridade (uma vez mais, e radicalmente), acompanhada de projetos urbanísticos e de políticas públicas que ajudaram a forjar a ideia moderna de cidade.

A cidade como a conhecemos hoje é o reflexo de um ideal de sociedade - industrializada, capitalista, baseada na democracia representativa e no cristianismo. Nessa forma idealizada, a cidade possui algumas características específicas:

  • induz ao agrupamento por atividade econômica, que traz vantagem competitiva a todos - empresas, fornecedores e clientes;
  • propõe uma distinção clara entre os espaços particulares com privacidade absoluta e os espaços públicos, onde a informação circula;
  • requer estabilidade e homogeneidade, baseada na formação de classes médias;
  • supõe a centralização de poder (delegado pela população às autoridades), o que facilita o controle e a segurança;
  • privilegia a centralização das fontes de informação: igreja, escola, imprensa e comunicação de massa.

É possível questionar as suposições sobre as quais essa cidade está baseada. O futurólogo alemão Chris Heller, por exemplo, discorda da associação comumente feita entre privacidade e liberdade. Segundo ele, ao tratar a privacidade como absoluto, o dissenso fica esmagado - o que gera sociedades mais moralistas e hipócritas. Heller não é o único a sugerir uma redefinição da privacidade.

Especialmente no caso do Brasil, a cidade moderna é uma ideia que foi importada sem muita preocupação com sua adequação às nossas características. Pior ainda, foi distorcida e implementada de maneira equivocada. Se podemos ler a ideia de cidade como uma tecnologia - geralmente desenvolvida de cima para baixo -, podemos também tentar metareciclá-la - desconstruindo suas bases, propondo releituras, apropriações e ressignificações.

MetaReciclando cidades digitais

O ideal de cidade moderna está cada vez mais distante do que se pode ver cotidianamente nos centros urbanos, talvez mais bem descritos como pós-cidades cyberpunk. Um exemplo claro, talvez extremo, é São Paulo. Vemos redes digitais por toda parte, sabotando as hierarquias da informação - para o bem e para o mal. Uma cidade não mais centralizada, mas fragmentada em diversas frentes. Uma economia distribuída, em grande medida informal. Um dinamismo que responde criativamente à instabilidade. Grande contraste e mobilidade sociais. Uma sensação iminente de violência, reforçada pelo alto nível de ilegalidade e impunidade, que refletem uma perda do controle que a cidade como estrutura costumava representar. É importante tentar atualizar nosso referencial sobre o que é uma cidade, para entender como podemos atuar para efetivamente transformá-la.

Um dos primeiros rascunhos de projetos elaborado dentro do Projeto Metá:Fora (o antepassado da MetaReciclagem) foi o Prefeituras Inteligentes, de Daniel Pádua, muito antes de qualquer um de nós ter contato com políticas públicas do mundo real. Propunha basicamente que as cidades fossem vistas como espaços informacionais complexos, e que se desenvolvessem espaços de catalisação do potencial dessa informação a partir de laboratórios ligados em rede com infra-estrutura metareciclada. Ele nunca virou um projeto em si, mas certamente influenciou como a gente desenvolveu coisas nos anos seguintes.

O que é essencial na cidade? Quais são suas estruturas em termos de informação? Ruas, praças, espaços públicos, espaços particulares de uso público, espaços privativos... como a gente pode interferir para criar relações mais colaborativas, participativas e livres? Como vamos raquear a tecnologia cidade? É possível transpor as ações que promovem a transparência de dados para a cidade?

Mesmo com cada vez mais ruído na relação, a cidade continua sendo atrativa - pelo acesso a infra-estrutura compartilhada (serviços básicos, saneamento, etc.), pela concentração de oportunidades de estudo, trabalho e atividades culturais. Existe também uma certa vertigem que leva à projeção (ou ilusão) de crescimento, enriquecimento, mudança de vida. Mas é fato que cidades menores têm cada vez mais acesso a infra-estrutura, e que cada vez mais oportunidades de trabalho poderão ser realizadas à distância. Qual o efeito disso no fenômeno da concentração urbana? Mesmo nos grandes centros, começam a despontar projetos mais focados nos bairros do que na cidade toda - tentando trazer de volta a familiaridade da vizinhança, o compromisso de pessoas que compartilham condições de vida.

Um movimento interessante nesse sentido é o das transition towns, que propõem soluções para os desafios das mudanças climáticas, a partir da transformação do cotidiano local - em bairros, vilarejos, pequenas cidades. Outro projeto interessante é o espanhol wikiplaza, que propõe entender o espaço público como sistema operacional, e promover ações de circulação de informação dentro dele.

Experimentação

É necessário refletir sobre qual papel as ações na fronteira entre arte, ciência e tecnologia devem assumir nessa metareciclagem da cidade. Um dos aspectos que estamos tentando investigar no projeto RedeLabs é justamente essa conexão entre a experimentação e a cidade. De que forma podemos propor que a exploração das fronteiras abstratas da inovação continuem fazendo sentido e realimentando a vida "real"? É interessante perceber essa mudança acontecendo também nesses circuitos experimentais. A edição de junho de 2010 do projeto Interactivos, no Medialab Prado de Madri, ofereceu reconhecimento ao movimento de "ciência de garagem", que vem emergindo nos últimos anos, mas propôs uma abordagem mais participativa: ciência de bairro. Os resultados foram muito interessantes: projetos que mesclavam conhecimento científico, perspectiva estética e demandas sociais ou ambientais.

Uba

Mesmo em contextos nos quais o urbanismo moderno nunca chegou a se desenvolver plenamente, é útil pensar na metareciclagem da ideia de cidade como ferramenta de construção de imaginário e transformação (talvez pensando em um desurbanismo). Nos últimos tempos, tendo a concordar com John Thackara - podemos fazer muito mais em nossa própria vizinhança do que fora. Nos próximos meses vou começar um projeto aqui em Ubatuba, tentando trazer todas essas questões para um ambiente diferente daqueles em que trabalhei até hoje. Existem vários caminhos a explorar. Um dos primeiros questionamentos que quero fazer é: quem são os donos dos mapas? A ideia é fazer o traçado da cidade no openstreetmap (por diversas razões), e depois partir para um mapeamento cultural e ambiental da cidade, em paralelo com iniciativas de turismo sustentável e ecoturismo, sempre buscando o diálogo com a rede MetaReciclagem. Vamos ver no que dá.


Mais e mais: esse assunto vai longe, sem muitas conclusões. Abaixo, alguns posts e coleções de links relacionados.

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